Idealizado e escrito por André Kfouri:
A mais significativa mudança no futebol, ao longo da história, não aconteceu dentro de campo. O jogo permanece basicamente o mesmo, acompanhando o desenvolvimento do ser humano e dos materiais, com raras mudanças na regra.
Foi a maneira de vermos o futebol que mudou radicalmente, por causa do aperfeiçoamento das transmissões pela televisão. Nada mais escapa às lentes de câmeras moderníssimas, posicionadas estrategicamente de modo a dissecar uma partida.
O problema é que esse aparato é o grande adversário do árbitro e de seus auxiliares. Os acertos são vistos como obrigação. Os erros, reclamados como “interferência no resultado”.
Atualmente, quem está no sofá vê um jogo completamente diferente de quem o arbitra. Percebe os enganos, as falhas, os erros grotescos, e fica pensando como seria se aquele impedimento não fosse marcado. Ou se aquela falta, que o juiz achou que foi meio metro fora da área, mas foi dentro, tivesse sido transformada em pênalti. Ou se…
As câmeras são os verdadeiros juizes. Que sejam oficializadas, então.
Que sejam usadas para ajudar os árbitros a garantir que o placar final de um jogo de futebol seja produzido apenas pelas ações dos jogadores em campo, com o maior índice de acerto possível.
Aqui estão minhas idéias (porque é sempre melhor criticar sugerindo):
* O apito eletrônico nada mais é do que um segundo trio de arbitragem, posicionado numa cabine no estádio, diante de monitores de televisão.
* Por que três pessoas, e não duas, ou uma? Porque uma decisão tomada em grupo (e por um número ímpar de pessoas), em caso de dúvida, é uma decisão mais acertada.
* O “trio eletrônico” se comunica com o árbitro do jogo, via rádio, mas só quando o árbitro achar conveniente. Os observadores estão lá para ajudar o juiz, não para comandá-lo.
* Exceção feita a três casos, em que a marcação do juiz será modificada pela cabine, se estiver errada: faltas dentro da área e jogadas de gol. O objetivo é garantir que as mudanças no placar sejam as mais limpas possíveis.
* O terceiro caso é o das agressões físicas deliberadas (murros, chutes, cotoveladas, cuspes e afins) e das faltas excessivamente violentas que tenham passado despercebidas, ou sido ignoradas. O juiz será comunicado e deverá expulsar o(s) infrator(es).
* Os times também podem recorrer ao apito eletrônico, quando se sentirem prejudicados por uma marcação, mas não sempre que quiserem. Cada técnico pode solicitar ao quarto-árbitro que um lance (qualquer lance) seja revisto, duas vezes em cada tempo do jogo.
* Dois “desafios” por tempo me parecem um número razoável, levando-se em conta que o jogo será paralisado por alguns segundos. Não queremos que a partida demore horas.
* Não há nenhum tipo de penalização para o time que solicitou o replay, se ficar provado que o árbitro acertou.
* A partir dos quarenta minutos do segundo tempo, os times ganham direito a mais um desafio cada. Se alguém vai ganhar um jogo nos momentos finais, que seja com um gol legal, não com um erro do trio.
É evidente que esse sistema só existiria nos jogos de futebol transmitidos pela televisão. O que significa que uma partida da terceira divisão do Campeonato de Sei-Lá-Aonde estaria por conta, apenas, do trio de arbitragem.
O que se pode fazer? É uma questão de representatividade. Quando a terceira divisão do Campeonato de Sei-Lá-Aonde for importante para um número significativo de pessoas, será maior a chance dela contar com o sistema.
Hoje em dia, qualquer jogo de futebol que se preze está na TV.
O apito eletrônico ajudará a garantir a lisura dos resultados de jogos e de campeonatos, sem acabar com a chamada “polêmica” do futebol. A diferença é que, no dia seguinte, não haverá prejudicados.
E também eliminará do futebol a figura do árbitro desonesto, quase tão antiga quanto o próprio esporte. Será muito mais difícil roubar.
COMENTÁRIO SOBRE A SUGESTÃO DE MUDANÇA NA REGRA DO IMPEDIMENTO:
Faltou uma explicação para o caso das jogadas de impedimento, quase sempre polêmicas. O que aconteceria se um impedimento fosse marcado, a jogada fosse paralisada, e no desafio do time que estava no ataque, ficasse comprovado que a jogada era legal?
Bem, seria impossível recriar a jogada, com todos os jogadores na exata posição em que estavam no momento em que o impedimento foi apontado.
A solução é uma MUDANÇA NA REGRA do jogo: toda jogada em que há um impedimento marcado prossegue até o final.
O auxiliar levanta a bandeira e PERMANECE com seu instrumento erguido.
Quando a bola parar, se for gol, o lance será revisto como aconteceria em qualquer lance de gol. Impedimento confirmado, gol anulado. Jogada legal, gol.
Se a jogada terminar com posse de bola do ataque (falta, escanteio ou lateral), o time que se defende pode optar por desafiar a marcação, para recuperar a posse.
Se a jogada terminar com posse de bola da defesa (falta, lateral ou tiro de meta), o jogo prossegue.
É uma situação um pouco mais complicada, mas pelo menos garante (como manda a regra) que, na dúvida, o lance deve seguir.
EXPLICAÇÃO SOBRE O “DESAFIO”:
O desafio é uma solicitação para que o “trio eletrônico”, que acompanha o jogo de uma cabine com acesso aos replays, reveja o lance e possa alterar o que o juiz marcou, se o técnico tiver razão.
A crítica mais comum ao desafio é que ele “quebraria o ritmo do jogo”. Pergunto: quanto tempo levamos, quando assistimos um jogo pela TV, para descobrir que o juiz errou em um lance? Quinze, vinte segundos? Trinta segundos? Esse é o tempo que levaria para que a cabine visse o replay e avisasse o árbitro. Não acho que é um exagero.
Ninguém apontou o maior problema do desafio, que é como dar sequência ao jogo em determinadas situações.
Imagine que o árbitro marca uma falta para o time A, bem perto da área. O técnico do time B não concorda, e desafia a marcação. O “trio eletrônico” analisa a jogada e conclui que não foi falta. O que fazer? Para mim, a solução mais lógica é a inversão da marcação, ou seja, uma falta para o time B, exatamente no mesmo ponto do campo. Mas reconheço que não é uma questão simples.
Outro ponto polêmico da nossa proposta é a alteração da regra do impedimento. Sugerimos que todas as jogadas em que o impedimento fosse marcado deveriam seguir até o fim. O assistente ergue a bandeira para sinalizar a irregularidade, e permanece dessa forma até a bola parar.
Se o lance terminar em gol, o replay será acionado, como em qualquer jogada de gol.
Se a jogada terminar com posse de bola do ataque, o time que se defende pode optar pelo desafio.
Se terminar com posse da defesa, o jogo segue.
Alguns blogueiros me chamaram de louco por causa dessa idéia. O problema é que não descobri nenhuma forma melhor de acabar com os erros de impedimento. Há quem defenda o fim do próprio, o que resolveria a questão. Mas acho o impedimento necessário, por isso não concordo.
Outros disseram que o jogo viraria uma bagunça. “…os jogadores ficariam confusos ao seguir com a jogada, sabendo que o impedimento foi marcado…”.
Os jogadores precisariam entender que, com a mudança na regra, o impedimento “marcado” deixará de existir. Só haverá o impedimento sinalizado, uma “suspeita” de que o lance foi irregular.
Portanto, não poderia haver aquela indecisão (principalmente por parte dos jogadores da defesa), quando o assistente levanta a bandeira e o árbitro manda seguir. E um bônus: não veríamos mais os zagueiros levantando o braço para pedir o impedimento, em vez de correr atrás do atacante.
Todos os lances deveriam ser disputados até o fim, como se fossem legais.
Esta é a sugestão mais complicada de toda a proposta, concordo.
Só que a defendo. Pois complicado, mesmo, é um jogo decidido por um gol ilegal.
– André Kfouri