
Ao mesmo tempo em que o Brasil perde tempo e milhões de reais para tentar ser sede de uma Olimpíada e discute o gasto de bilhões para reformar/construir estádio para a Copa, um brasileiro-exceção está nas capas de todos os jornais e portais, nas escaladas dos telejornais e nos noticiários das rádios: César Cielo.
Exceção porque não joga futebol nem vôlei, esportes em que o Brasil é elite.
Exceção porque fruto do talento pessoal, do sacrifício da família, do esforço sem limites para superar a deficiência de um país que se recusa a estabelecer uma política esportiva que permita criar muitos Césares, Gugas, Daianes, Maurrens…
Claro que acontecerá uma visita ao Presidente – com seu ministro do Esporte sorridente ao lado. Tapinhas nas costas, milhares deles, de cartolas e de oportunistas de plantão.
Mas a família Cielo sabe bem o trabalho que deu transformar César em campeão olímpico em Pequim e agora campeão e recordista mundial em Roma.
A formação desde criança, os gastos com a preparação, o envio par ao exterior, a separação dolorida, treinos, treinos e mais treinos com um dos melhores preparadores do mundo num dos centros mais importantes do planeta para nadadores de velocidade.
Os dirigente das confederações querem sempre mais dinheiro e nunca o esporte brasileiro recebeu tanto, porque o governo (este e os anteriores) decidiu que o investimento oficial tem de ser no esporte de alto rendimento.
Criou leis de renúncia fiscal para que as empresas usem o que recolheriam em impostos para patrocinar equipes esportivas. Mas não exige, em contrapartida, que estas empresas gastem em escolinhas de esportes nas periferias, por exemplo. Ou no aparelhamento de centros esportivos que receberiam os milhões de crianças.
A política do governo é determinar que companhias estatais como Correios, Banco do Brasil, Petrobrás, Eletrobrás, Caixa Econômica Federal gastem verbas cada vez maiores para bancar seleções de diversas modalidades, sempre no alto da pirâmide.
Não seria muito melhor usar esse dinheiro para o aparelhamento de escolas públicas para que os professores tivessem mínimas condições de ministrar aulas de educação física, de iniciação esportiva?
O Brasil praticamente abandonou a matéria nas escolas – ou elas figuram na grade virtualmente, porque não há bolas, redes, quadras, colchões, equipamentos.
O esporte brasileiro deveria começar na escola, na infância, como, aliás, já aconteceu no passado.
Não só porque contribuiria para a formação de uma população mais saudável e educada, mas também para garimpar os talentos esportivos que seriam encaminhados para centros de formação mais específicos, até chegarem ao alto rendimento.
A cultura esportiva adquirida nos bancos escolares agiria ainda como formadora de público, para que nossos ginásios não ficassem às moscas – o brasileiro, em geral, não gosta de esporte, gosta de vitória.
E só se aprecia uma modalidade quando se conhece a mecânica do jogo, as regras. Cultura esportiva deveria ser adquirida na escola.
O dinheiro que se gastou com as colossais arenas do Panamericano não estaria mais bem aplicado nas escolas?
O que consome (de novo!) o projeto para, provavelmente, não conseguir a Olimpíada, não traria mais benefícios em centros de formação?
As verbas das empresas estatais não trariam mais resultados, se difundissem o esporte nas periferias mais longínquas do País?
Dá orgulho de ver Cielo chorar no pódio, claro.
É bom ver surgir Felipe França, que ninguém conhecia.
É bom saber que temos o melhor ginasta do solo, Diego Hipólito, como já tivemos Daiane.
Foi bom ganhar roland Garros com Guga.
Que alegria ver a força feminina de Maurren Maggi, campeã olímpica.
Mas com uma política de esportes de verdade, competente, essas gostosas sensações se repetiriam a cada final de semana, a cada competição internacional, em muito mais modalidades.
Hoje, continuamos vibrando com as exceções, esperando que um talento natural tenha um pai disposto a gastar muito e fazer muito sacrifício para dar ao Brasil mais um camepeão – e não é por acaso que os pais chora tanto quanto os filhos na hora da premiação. Eles também são campeões.
– Milton Leite, narrador do SporTV para o Jornal O Estado de São Paulo do dia 02/08/2009.